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Decifra-me ou devoro-te
Escrito por Yara Denadai   

Cigarro, ame-o ou deixe-o. Será que poderíamos usar  esta máxima aplicada ao Brasil nos anos de chumbo? Evidentemente não. Sabe-se que é crescente o número de dependentes que querem deixar de fumar mas não conseguem simplesmente. O domínio dessa droga é tão intenso que só alguns demonstram tal capacidade. Não se trata aqui de usarmos de juízos de valor e comentários superficiais carregados de clichês: "Ora, é só querer, todos conseguem parar, é preciso  força de vontade, coragem, determinação, apoio etc etc etc..." Os fumantes, apesar de eu implicar muito com aqueles que acendem um cigarro perto de mim, são vítimas de interferências históricas, culturais e óbvio, comerciais e psíquicas.

Cigarro mata!

Vejamos então um pouco mais de perto algumas destas interferências. Quanto à história do cigarro, sabe-se que "o capelão da primeira expedição francesa ao Brasil, em 1556, relatou seu uso entre os tupinambás. Daqui, o fumo emigrou clandestinamente para Portugal e para a Espanha. Fumar cigarro era raridade até o final do século 19. Em 1880, cerca de 58% dos usuários de tabaco eram mascadores de fumo, 38% fumavam charuto ou cachimbo, 3% cheiravam rapé e apenas 1% era fumante de cigarro. Nesse ano, o americano James A. Bonsack inventou uma máquina capaz de enrolar 200 cigarros por minuto, o que criou condições para o aparecimento da indústria. Então veio a distribuição de cigarros aos soldados nas trincheiras, durante a Primeira Guerra, e seu uso, que se achava restrito às camadas marginais das sociedades americana e européia, explodiu. Em 1900, o consumo anual americano era de cerca de 2 bilhões de cigarros; em 1930, chegou a 200 bilhões. As duas guerras mundiais, que afrouxaram a oposição ao cigarro, a urbanização acelerada, a criação do mercado de massa e a expansão do mercado de trabalho, criaram as condições para que a epidemia do fumo se espalhasse pelo mundo, envolta em glamour por Hollywood, como símbolo de modernidade." (Drauzio Varella, in Fraude, corrupção e mentira)
O cigarro simbolizou nas décadas de 60 e 70 a rebeldia, a auto-afirmação e a independência. As propagandas nas décadas de 80 e 90 não se cansavam de mostrar homens lindos, fortes, corados domando cavalos bravios numa demonstração de força e coragem e que recebiam a recompensa da presença feminina, geralmente linda, corada e... (bem, preencham vocês...). E as vendas aumentavam e as propagandas atingiam a todos levando jovens ao vício que, a princípio, não sabiam em que arapuca se metiam. Lembramos que a proibição dessas propagandas nos meios de comunicação de massa chegou aqui com 30 anos de atraso  em relação aos EUA.
Quanto às interferências psíquicas, parecem ser várias e eu não me atreveria a fazer uma psicologia de botequim mesmo porque enveredar pela mente humana é tarefa árdua e de responsabilidade de profissionais especializados. Campo minado e perigosíssimo... algumas já foram citadas acima(como as propagandas e seus símbolos de virilidade, força e coragem) mas há aspectos comportamentais relevantes para a questão. Como afirma novamente Drauzio Varella, médico combatente do tabagismo, ex-fumante: "Comecei ainda adolescente, porque não sabia o que fazer com as mãos quando chegava às festas. Era início dos anos 60 e o cigarro estava em toda parte: televisão, cinema, outdoors e com os amigos. As meninas começavam a fumar em público, de minissaia, com as bocas pintadas assoprando a fumaça para o alto. O jovem que não fumasse estava por fora." (in: Droga Pesada). De um problema emocional passa-se a um problema químico, à dependência, pois o usuário sente prazer ao consumir a droga. No caso da nicotina, esse prazer está ligado à sua interação imediata com receptores dos neurônios situados em áreas do cérebro associadas às sensações de prazer e de recompensa e à busca da repetição do estímulo que provocou o prazer. Se um cigarro for consumido em dez tragadas, o autor (Mario César Carvalho, autor do livro O Cigarro) calcula, o cérebro do fumante de um maço por dia verá esse circuito repetir-se 73 mil vezes por ano. E pergunta com lógica cristalina: que outra droga provoca 73 mil impactos de prazer num ano? Nessa pergunta elementar está a resposta à dificuldade enfrentada pelos 80% ou mais dos que fracassam na tentativa de abandonar o cigarro. Nela está a explicação de por que é mais difícil largar do cigarro do que do álcool, da maconha, da cocaína, da heroína, da morfina ou do crack.
    Para os fumantes, acho que o que resta é a sensação de se estar diante de um enigma tão complexo quanto  o que conferiu a Édipo a consagração de sua tragédia: Decifra-me ou devoro-te, frase esta pronunciada entre dentes, numa baforada de fumaça e caro prazer não mais raro, como anunciava aquele velho comercial, infelizmente.

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